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Libertária

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22.Mai.24

Urgência Desumana: Um Relato de 24 Horas no Hospital Amadora-Sintra (Propostas e Sugestões Concretas)

 

 

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Em 17 de maio, no decurso de um episódio de urgência devidamente encaminhado através do 112, com transporte por bombeiros às urgências do Hospital Amadora-Sintra (Fernando Fonseca) foi constatado que o tempo médio desde a admissão no Hospital até se ser observado por um médico era de entre 6 a 7 horas. Efectivamente, 5 horas e meia depois da admissão (às 18:30) ainda nenhum clínico havia observado este paciente e o mesmo estava a acontecer com outros doentes na dita “sala das macas do SO”: na altura mais de vinte pacientes aguardavam observação por parte da equipa médica. Quem se dirigia ao “balcão dos médicos” era confrontado ou com a indiferença dos médicos de serviço ou recebia respostas vagas quanto à estimativa do tempo que faltaria até ao atendimento

Horas depois, as macas já ocupavam parte do corredor e muitos acompanhantes protestavam pelo longo tempo de espera dos seus familiares para serem observados por um médico. Perante os protestos, a resposta era invariavelmente a mesma: “a alternativa seria um abandono das instalações e à responsabilidade dos utentes”. No episódio acima referido o essencial da conversa foi uma deriva filosófica sobre "paciência", "tempo para curar" e outras generalidades sobre as pessoas que protestam contra a lentidão que hoje em dia caracteriza as urgências do SNS. Neste caso concreto a nota de alta só foi passada (por outro médico: compassivo e competente) após 23 horas e 50 minutos. Na sala ainda ficaram doentes que se encontravam  desde antes das 18:30 de 17 de maio. O clima era de absoluto desconhecimento do andamento dos processos, desespero pelo cuidado dos seus familiares, ignorância sobre os próximos passos e a percepção de que as pessoas tinham sido esquecidas ou abandonadas - durante horas - na sala sem perspectivas de resolução. Inclusivamente, os painéis informativos estavam a projectar números de senha nulos, embora os painéis publicitários estivessem a funcionar em pleno apresentando vários e diversos anúncios comerciais.

Na perspectiva de utentes, acompanhantes de pacientes e cidadãos preocupados mas não especialistas, o que pode ser feito para melhorar o serviço - sem grandes despesas - neste e noutros hospitais do SNS? A partir da experiência obtida na situação particular em apreço, observamos e sugerimos:

  1. Quem espera por tratamento no Hospital Fernando da Fonseca (dito "Amadora-Sintra", não sabe o nome dos médicos e enfermeiros que o atendem: Esta anonimidade protege os incompetentes e os maliciosos (poucos) e esconde o mérito dos competentes e compassivos (muitos). Médicos e enfermeiros deveriam ostentar o respetivo nome no uniforme, em local claramente visível. 

    Um exemplo concreto de regulamentação sobre o uso de crachás de identificação no Serviço Nacional de Saúde (SNS) pode ser encontrado no Regulamento Interno do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), no Porto. Este regulamento estabelece que todos os funcionários devem utilizar crachás de identificação durante o desempenho das suas funções. Acreditamos que deveria ser obrigatório, com força de lei, em todas as unidades do SNS e que a sua aplicação deve ser fiscalizada.
  1. As diferentes funções de cada trabalhador de saúde devem ser claramente fornecidas não apenas através da identificação junto ao nome, mas em painéis informativos que explicam a divisão do fardamento por cores: auxiliares, enfermeiros, médicos, devem ser claramente identificados.
  1. O paciente e acompanhante devem ter formas de - a todo o momento e quase em tempo real - saber o que está a acontecer e qual será a próxima actividade. Dessa forma se reduz a ansiedade e a conflitualidade, prevenindo os fenómenos de violência referidos em vários cartazes espalhados pelo hospital e que presenciámos várias vezes ao longo das 24 horas que este episódio de urgência durou). Esta informação, com alteração de estado, pode ser enviada por SMS ou colocada num site de acesso seguro e autenticado, na página do utente, no portal do SNS. Actualmente, da forma como os processos estão (des)organizados, não sabemos se fomos esquecidos, se estamos a ser  penalizados por algo dito ou feito, se existe alguém a cuidar de nós ou do nosso familiar, ou se, simplesmente, iremos receber alta e sair deste pesadelo em breve. Nem sequer sabemos o nome do médico que nos foi atribuído, caso já nos tenha sido  atribuído um e se perguntarmos à equipa de enfermagem informam-nos que não podem fornecer essa informação.
  1. Os horários dos profissionais de Saúde são tão desumanos como os tempos de espera no hospital. É absolutamente desumano, injusto e propiciador de erros humanos, que podem ceifar vidas, permitir que trabalhadores tenham turnos de 12 e mais horas. Estes horários devem ser humanizados - com urgência - e aplicados da forma que é comum em todos os serviços públicos e privados, no âmbito de uma profunda reforma do sistema de gestão de recursos humanos e horários nos serviços.
  1. É preciso reformar e melhorar os métodos de recrutamento e selecção dos médicos: ao fim de alguns anos de exercício da profissão em ambiente de stress hospitalar a impaciência e insensibilização de alguns médicos – não todos - torna-se notória, devendo ser combatida logo no princípio da formação e aquando da aceitação do estatuto do profissional na Ordem dos Médicos. O mesmo vale para enfermeiros e auxiliares de ação médica, com as devidas adaptações.
  1. A maioria dos utentes do hospital são idosos e a queixa que mais se ouve deles é a da solidão. O hospital não tem condições nem funções para resolver esse problema, mas pode colaborar com o Estado e a Sociedade Civil no desenvolvimento de formas de habitação colaborativa, também conhecida como "cohousing" , encaminhando para estas os utentes que identifique como precisando de tal serviço e apoio. A habitação colaborativa apresenta um potencial especialmente relevante como resposta às necessidades habitacionais dos jovens que estão a iniciar a sua vida e ainda não constituíram família, assim como para os cidadãos idosos que desfrutam de um nível significativo de independência, e merece ser apoiada pelo Estado e pelas suas instituições (para saber mais: vd. https://www.sapo.pt/opiniao/artigos/habitacao-colaborativa)
  1. Após cada episódio de urgência, o utente deve receber no seu telemóvel um SMS com o link para o preenchimento de um questionário de satisfação que tenha repercussão direta nos benefícios (vencimento variável) dos profissionais que estiveram directamente envolvidos no cuidado ao paciente.
  1. A ficha médica do utente, mencionando as suas limitações (problemas de mobilidade, déficit cognitivo ou alergias), deve estar online e sob acesso a familiares autorizados, sendo actualizada quase em tempo real pela equipa médica que está a tratar o paciente.
  1. A sala de espera das macas do SO deve ser humanizada e melhor cuidada. As paredes, pinturas e chão não estão completamente limpos, com manchas de sangue seco visíveis em alguns locais. Faltam cadeiras para os acompanhantes, que ficam de pé junto aos seus familiares durante 6, 12 ou mais horas. Além disso, há escassez de mantas, cobertores e cadeiras de rodas. Este cenário está muito aquém do que seria de esperar encontrar numa instituição de saúde do século XXI.
  1. O vencimento dos profissionais de saúde deve ser actualizado e tornado compatível com os padrões europeus e do sector privado.Só assim se trava a fuga de quadros essenciais ao país e se resolve de forma assertiva e urgente a carência grave de médicos em Portugal.

A impressão com que ficamos é de sermos meros grãos de areia triturados por uma engrenagem cujo funcionamento e natureza desconhecemos, com objectivos discricionários e profundamente avessa a qualquer crítica ou reclamação sobre a “desumana” espera, tão prolongada. No sistema de urgências do SNS somos tratados como seres insignificantes, esmagados sem consequências pelo sistema, que demonstra uma soberba absoluta perante qualquer crítica à forma desumana com que opera.

 

Observatório Cidadão para a Qualidade do SNS:

https://www.facebook.com/groups/observatriocidadoparaaqualidadedosns 

Paulo Ferreira

Rui Pedro Martins

Manuela Rodrigues 

(e outros membros do Observatório Cidadão)

Enviada ao gio@hff.min-saude.pt, Provedor de Justiça, ARS, Ordem dos Médicos e Ministério da Saúde