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10.Abr.23

Pedaços de História em Lisboa: Lugares de Lisboa com história de espionagem: II Grande Guerra e Guerra Fria

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Não é segredo para ninguém (pelo menos desde que cada um de nós viu - e devia ver - Casablanca) de que Lisboa foi um dos maiores centros de espionagem durante a Segunda Grande Guerra. Mas o que talvez nem todos saibam são algumas das histórias que aqui contamos e que graças ao livro "Espiões em Portugal Durante a II Guerra Mundial" (uma referência incontornável neste domínio) da historiadora Irene Flunser Pimentel pudemos aqui reunir.

A neutralidade "colaborante", primeiro com os nazis e depois com o aliados do regime de Oliveira Salazar criou as condições para que Lisboa fosse um forte atractor para os melhores espiões de ambos os lados do conflito. A neutralidade, o atlantismo do país que o transformava no principal ponto de partida de refugiados a caminho da América e um porto de abrigo - provisório ou definitivo - para muitos exilados e refugiados. Foi por essa razão que o catalão Joan Pujol, ou "Garbo", considerado por muitos o melhor espião britânico da guerra passou por Lisboa e pelo Estoril.

Joan Pujol AKA "Garbo":
Quando "Garbo" esteve em Lisboa hospedou-se no hotel Suíça Atlântico situado na Rua da Madalena 111, que ainda hoje existe e que se localiza no centro da cidade e a apenas alguns minutos a pé da Estação do Rossio. Foi a partir do seu quarto neste hotel que Garbo construiu a sua estratégia para funcionar como "agente duplo" britânico e enganar os alemães. Era neste quarto que o espião escrevia as cartas cifradas em que descrevia a capital britânica (que nunca visitara mas que conhecia através de um livro de viagens) e que enviava regularmente para o Reino Unido.

Dusko Popov (agente duplo dos Aliados):
Segundo documentação do FBI este jugoslavo portava-se em Lisboa como um "playboy" usando carros de luxo, roupa muito dispendiosa e frequentava os melhores hotéis da cidade. Como Garbo, este agente duplo, deu aos alemães pistas que os enganaram quanto ao local do desembarque do dia D.

Ian Fleming (agente britânico):
O "inventor" da personagem de James Bond passou por Portugal na qualidade de agente da Inteligência Naval Britânica e director do escritório ibérico do serviço de espionagem britânico. Terá sido aqui e nomeadamente em Dusko Popov que Fleming se inspirou para criar James Bond.

Edward Arnold Chapman (agente duplo britânico):
Conhecido pelos serviços britânicos como "Agente Zigzag" terá passado e trabalhado na capital portuguesa.

Locais de Lisboa com actividade de espionagem durante a Segunda Grande Guerra:

Cais do Sodré:

Os agentes germânicos em Lisboa enviaram a Berlim vários relatórios em que afirmavam que as prostitutas portuguesas que trabalham na zona do Cais do Sodré recolhiam informações sobre a partida e chegada de navios mercantes alemães que depois vendiam aos britânicos. Por esta razão os bares e os bordéis do Cais do Sodré eram usados muitas vezes como centros de recrutamento por parte da Abwer germânica e do SIS inglês

Hotéis lisboetas referenciados como pró-Alemanha:

Pelas simpatias dos seus gerentes ou funcionários eram referenciados como "pró-germânicos" os hotéis Suíço-Atlântico (Rua da Madalena, 111), Duas Nações (Rua da Vitória, 41), Bristol (Rua São Pedro de Alcântara, 81), Francfort (Rua de Santa Justa, 70), Avenida-Palace (Rua 1º de Dezembro, 123).

Hotéis lisboetas referenciados como pró-Aliados:

É relativamente seguro que a maioria da população nutria simpatias pelos Aliados e, entre estes, sobretudo pelos britânicos. De facto e apesar das ligações ideológicas com o fascismo italiano até boa parte do regime e da PVDE (antecessora da PIDE) e da Legião Portuguesa era suspeita, pelos alemães, de ser anglófila. Não causa assim espanto que se encontrassem em muitos cafés e mercearias lisboetas propaganda pró-britânica e que o mesmo acontecesse com muitos hotéis da capital portuguesa e no Estoril (onde parece que os agentes aliados eram mais ativos do que em Lisboa).

O Hotel Avenida-Palace, preferido pelos Aliados, também era um dos pólos de actividade dos serviços de informações aliados e, em particular, dos britânicos sendo o conhecido "corredor secreto" que ligava o cais dos comboios da estação do Rossio a um andar do hotel e que permitia que se entrasse e saísse de forma incógnita usada pelos espiões alemães e italianos e menos (se foi usado: de todo) pelos britânicos. Originalmente construído para permitir o acesso ao hotel de "mulheres dos night clubs" acabaria sendo usado no conflito mundial como ponto discreto de chegada à capital destes agentes secretos.

Por seu lado, o hotel Suíço-Atlântico embora dado como "pró-germânico" também alojou espiões britânicos como o acima citado "Garbo". Igualmente considerados como pró-Eixo estavam os hotéis "Duas Nações" (Rua da Vitória), apesar do seu nome, o "Bristol" na Rua São Pedro de Alcântara, o Victoria (Avenida da Liberdade) e os dois hotéis com, obviamente, o nome "Francfort" (o antigo "Dois Irmãos": no Rossio com a Rua da Betesga) e o outro na Rua Augusta.

O Hotel Tivoli na Avenida da Liberdade, e nomeadamente o seu bar, era ponto de encontro de agentes secretos sendo considerado pelos serviços secretos aliados como "pró-Eixo".

O Hotel Metropole, no Rossio, era tido como pró-britânico assim como o Hotel Aviz (onde viveu Calouste Gulbenkian) na Av. Fontes Pereira de Melo embora ao longo do conflito tivesse sido também classificado como "pró-eixo" pelos britânicos sendo o maître d'hôtel considerado também (talvez injustamente) como um agente italiano.

Cafés de Lisboa com actividade de espionagem aliada e alemã:
No Rossio, a Pastelaria Suíça e o Café Chave d'Ouro e na Avenida da Liberdade, o Café Lisboa na esquina da Avenida da Liberdade com a Travessa do Salitre eram conhecidos como ponto de encontro de espiões e aliados e das potências do Eixo assim como ponto de recrutamento de agentes portugueses por parte de ambos os lados do conflito

Clube Alemão:
Existiram no Porto e em Lisboa grupos locais do NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei ou Partido Nazi). Em Lisboa estes reuniam-se na Casa Alemã e no Clube Alemão da Rua do Passadiço. Foi este clube quem editou um "Boletim de Notícias" com notícias de encontros de expatriados alemães em Lisboa e no Estoril. O clube era presidido por Carl Schuldt e chegou a contar com 294 associados entre os 1200 alemães que viviam na capital. Foi este clube que acolheu o viajantes da "Kraft durch Freude" ("organização dos tempos livres") que aportaram em Lisboa várias vezes antes da eclosão do conflito mundial.

Rui Pedro Martins

Fontes:
https://exame.com/mundo/portugal-um-ninho-da-espionagem-durante-a-segunda-guerra/
https://www.montepio.org/vantagens-montepio/experiencias-inesqueciveis/a-lisboa-dos-espioes/
https://www.sabado.pt/vida/detalhe/as-aventuras-das-mulheres-que-espiaram-e-seduziram-em-lisboa