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Libertária

a liberdade passa por aqui

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24.Mar.23

Do papel à blogosfera, a nova vida da "Libertária"

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"Um espaço de liberdade e autarcia", foi este o título que escolhi para o prefácio do primeiro número da Libertária, no já distante Dezembro de 2018. Longe de pensar que teriamos de lidar com uma pandemia e com uma nova guerra na Europa, o tom era de esperança para a esquerda mundial: Bernie Sanders vibrava nos EUA, Jeremy Corbyn renovava as bases do Partido Trabalhista no Reino Unido, em Espanha o PSOE aliava-se à sua esquerda com o PODEMOS e em Portugal tinhamos a Geringonça, que derrubara finalmente o muro que separava o centrista e cinzentão PS da restante esquerda.

Uma mão cheia de militantes e simpatizantes do PS que olhavam para os primórdios do partido quando este pregava a autogestão, quando o socialismo democrático de Eduard Bernstein - bem ou mal - ainda guiava os socialistas europeus, antes de sucumbirem ao liberalismo social da Terceira Via, achou que era altura de lançar uma revista que fosse buscar esse legado reformista e conjugá-lo com o socialismo libertário que, a nosso ver para seu mal, nunca teve o seu Bernstein nem o seu Kautsky.

Surgindo num vazio, a recepção ao nosso primeiro número foi extremamente calorosa num primeiro momento, durante a Geringonça, mas depressa se esfriaram os ânimos. Os socialistas libertários convencionais (que ironicamente apodamos de "anarquistas ortodoxos") não gostaram da heresia de ver o libertarianismo, que a seu ver só é puro se se mantiver longe de partidos e nem sequer for votar em eleições, aparecer como tendência interna de um partido do sistema e ainda menos no nome de uma revista que consideravam partidária, embora nela tenham escrito pessoas dos vários partidos da esquerda e até sem partido.

No PS, que aparentemente sempre planeara distanciar-se da restante esquerda e do projecto da Geringonça à primeira oportunidade eleitoral (como o comprova a actual maioria absoluta), também se foram fechando portas, mas a revista manteve-se por mais 5 números, sendo que apenas 4 chegaram a ser impressos e distribuídos.

Era uma vez a "Libertária" nº 5

Seria uma ocasião de pompa e circunstância, reuniram-se os textos de uma equipa de luxo, começou a organizar-se o lançamento na Feira do Livro de Lisboa em Setembro de 2022 e uma conferência que iria reunir as várias vozes das esquerdas internas do PS com progressistas e socialistas democráticos sem partido ou de outros partidos (sei que alguns optimistas ainda tentam resgatar a social-democracia da falsificação ideológica que em Portugal a transformou em sinónimo de liberalismo e direita, mas as coisas são o que são e optamos pelo termo socialismo democrático nas nossas páginas).

Já parcialmente paginada, quis o destino que não visse a luz do dia e os luditas entre nós - assumo-me como um deles - viram-se vingados ao testemunhar como um problema técnico fez desaparecer a esperança da revista sair em papel no design, a nosso ver sublime e belo - uma obra de arte digital às mãos de Jorge Matias, a que habituaramos os nossos leitores.

Começou-se então a trabalhar numa edição digital num renovado Libertaria.pt, com design de jornal online profissional. O principal erro foi provavelmente este vosso webmaster não ser propriamente jovem, além de, recordo, ser um convicto ludita, pelo que não soube fazer a devia manutenção do portal e o mesmo acabou por ser hackeado, foi-nos cortado o acesso e o domínio onde se encontrava tornou-se viral, no sentido de estar cheio de vírus. A opção foi apagar por completo o portal do servidor, a segunda morte da Libertária nº 5.

Regresso à blogosfera

Após termos experimentado os novos sabores da moda para o jornalismo alternativo, Medium e Substack, para onde alguns projectos muito dignos têm migrado, e tendo espreitado o clássico Blogger, percebemos que as novas plataformas nada mais são do que o regresso da blogosfera, mas agora despojada da empatia e do debate aceso causados pelo blogroll.

"Porque é que não vão para os Blogs do Sapo?", lançou o nosso colaborador João Ferreira Dias. Já estava familiarizado com a plataforma visto aqui ter nascido e o morrido o Autarcias, mas seria apropriado uma revista passar de papel a blogue? Conta um blogue sequer como revista digital? E, feitas as contas, sem orçamento e equipa fixa numa redacção, poderíamos sequer ser uma publicação digital?

Ponderados prós e contas achamos que sim, a Libertária, como projecto difusor de ideias e contracultura, pode bem transformar-se numa revista digital em formato blogue, logo veremos se as parcas centenas de pessoas que nos leram em papel nos irão seguir para aqui. E podendo ser blogue, porque não optar pela prata da casa? O Sapo em vez de plataformas estrangeiras.

Para quem ainda não nos conheça, alerto que em Fevereiro de 2022 também nos transformamos em associação cultural e projecto livreiro, podem ler aqui a entrevista que dei na altura à Lusa, sobre os nossos livros, subvenções populares (crowdfundings para os estrangeirados) e autores escreverei nas próxima crónicas.

Flávio Gonçalves | @haesquerda